quinta-feira, 2 de junho de 2011

O dia estava claro, ensolarado, o céu estava de um azul incrível. Aves voavam pelo céu, crianças corriam pelo gramado, do jeito que ele gostava. A vida pulsava naquele dia, só que ninguém percebia, estávamos tristes demais para isso. Era como se um pedaço de nós estivesse morrendo com ele.

Ele costumava dizer que nada é tão ruim que não possa ser bom, creio que ele tinha razão. Apesar de toda alegria lá fora, por dentro só a tristeza tinha espaço. Foi quando a vi, não sabia quem era, nunca a havia visto, mas era como se eu conhecesse-a desde que nasci.

Era estranho, parecia que somente eu a via, uma mulher como ela costuma chamar a atenção tanto que após colocar meus olhos nela eu não consegui desviá-los. Ela me viu e sorriu, até hoje não sei como consegui continuar olhando para ela. Assim que ele morreu ela se foi, nem vi quando isso aconteceu.

Pode até parecer frieza, mas enquanto ele era enterrado tudo o que eu pensava era em revê-la. Porém esperei em vão, pois ela não apareceu.

Após algum tempo procurei saber quem era ela, só que ninguém se lembrava de ter visto alguém como ela, somente eu. Comecei a pensar que tivesse apenas sonhado.

O tempo passou, dela eu só tinha lembranças, até que um dia alguém me disse oi. Era ela. Tentei balbuciar algo, mas o resultado não foi dos melhores, ela sorriu. Pensei em lhe dizer tanta coisa, mas nada saiu. Ela me disse algo, o nervosismo era tanto que nem lembro mais o que foi. No fim a conversa não foi muito longe, ela se foi, disse que o trabalho a esperava e que nos veríamos depois. Quis lhe perguntar algo, mas não consegui.

Duvidando que fosse revê-la eu sai do trabalho no dia seguinte e antes que eu virasse a esquina ela disse oi. Não me lembro o que conversamos, só lembro dela dizendo que precisava ir trabalhar e, como naquele dia, ela iria para o lado de minha casa ela me ofereceu companhia.

Os dias seguiram-se, passamos a nos encontrar diariamente e quando dei por mim estava dormindo com ela a meu lado, mas ainda acordando sozinho. Dizia ela que seu trabalho lhe tomava muito tempo e que por isso não podia passar mais tempo comigo, mas que, ainda assim, não o trocaria por nada. Meus amigos, que nunca a viram, achavam que ela fosse casada e, para ser sincero, eu também sempre acreditei nisso. Mas para quê tentar mudar algo que estava indo tão bem?

Com o tempo passamos a ter um único ponto de encontro: minha casa. Ela aparecia quando queria, aproveitava-se de toda minha energia e ia embora enquanto eu dormia. Falávamos pouco, nos comunicávamos através de ações, nossos corpos suados, ofegantes de prazer, se expressavam melhor que mil palavras.

O tempo continuou a passar, minha memória já não é tão boa e meus cabelos começaram a cair, os que não caíram ficaram branco. Minhas forças se foram, já não consigo fazer coisas que antes eram tão simples. Mas o tempo não teve efeito sobre ela, ela ainda me parece igual ao dia em que a vi pela primeira vez. Sua eterna juventude é tal que a seu lado eu sinto-me de novo com apenas vinte anos. Ela me dá energia, ela me faz jovem de novo.

Por que resolvi escrever isso hoje? Eu não sei, talvez porque eu sinto que minha hora está chegando, enfim irei morrer e não tinha nada melhor para deixar para você. Arrependo-me um pouco de não ter filhos, mas, ainda assim, se me fosse dado a oportunidade de mudar meu passado eu escolheria deixá-lo exatamente como está.

Bem, creio que é isso, não tenho mais nada a escrever. Ela chegou para nosso último momento juntos:

_ Veio se despedir de mim?
_ Não, vim te buscar.

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