quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Diário de um Desconhecido XIV

Sopra uma frisa bina, digo uma brisa fina. Cai uma chuva morna que abaixa a poeira e levanta esse cheiro de terra molhada. Enquanto isso eu fico aqui, só olhando, observando enquanto a paisagem toma banho. E ela lá dançando na chuva, parece até que nunca havia visto a chuva. Ela me chama para dançarmos juntos, devido a minha recusa ela me puxa para junto dela. A água me molha aos poucos enquanto ela insiste em que eu participe da dança. Já completamente molhado, eu me junto à ela em sua dança estranha e me esqueço de tudo. Dançamos, corremos, pulamos. Parecemos até crianças brincando na chuva. Nós nos divertimos e esquecemos do mundo, naquele instante só existia eu, ela e a chuva, nada mais importava. Ficamos assim até que, finalmente , ficamos cansados. Paramos e nos sentamos sob a varanda apenas observando a chuva banhando a relva e sentindo o suave perfume de terra molhada. Acabamos dormindo com o leve barulho da chuva e eu acordo de novo no deserto negro em companhia do tempo, me dizendo que não era para eu ter voltado ainda, e do sono, que me ajuda a voltar para o mundo dos sonhos.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Trincheira

Não sei se alguém se lembra, mas há algum tempo eu postei aqui no blog um vídeo da carioca Agatha Sampaio (OWL - One Way Love). Hoje faço o mesmo. Deixo aqui para o deleite de todos outro vídeo da Agatha.



Passa das vinte e três horas.
Hoje eu varo a madrugada mendigando
na memória momentos de você.

YouTube Channel da Agatha Sampaio: http://www.youtube.com/user/xperiencebr


quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Diário de um Desconhecido XIII

O mundo está girando e tudo gira com ele, dó eu faço o contrário e fico parado. Tudo começa a girar vagarosamente, mas, quanto mais o tempo passa, mais rápido o mundo gira. Isso não me faz tão bem, pois hoje minha cabeça não consegue acompanhar direito o mundo a girar, e isso começa a me deixar zonzo. Para ajudar minha mente, eu tento acompanhar a todos e girar com o mundo, mas o meu corpo não ajuda. Tento, em vão, fazer o mundo parar de girar ou, pelo menos, fazê-lo girar mais lentamente. A dor vem para me avisar dizendo que havia algo de errado e, só então, eu percebo que o mundo não está girando tão rápido quanto eu pensei, a minha mente é que está girando na direção contrária. Eu tento fazer minha mente seguir o mundo e correr no sentido certo . Eu tento fazer minha mente seguir o mundo correndo no sentido correto, mas eu estou zonzo demais para tal. A calma tenta me ajudar, mas não obtém muito sucesso. Eu procuro pelo socorro, mas só encontro o desespero, que me diz algo, mas eu não consigo entender direito o que eu tento escutar. Sai o dia, vem a noite e o mundo a girar. Fecho os olhos e tento ir para lá, mas a dor atrapalha minha concentração dizendo-me sempre que algo estava errado. E continua tudo assim até que o sono consegue acalmar minha mente e nos leva de volta para o mundo dos sonhos.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Eu acho que moro numa casa assombrada. Seu estilo colonial me assusta. Entristece. Me deixa sentado em minha poltrona rasgada de espuma e esqueleto para fora - fraturas expostas numa velha poltrona. Ontem enquanto eu ia pegar algo para comer na dispensa algo me assombrou. Um movimento suspeito numa sacola a menos de 10 centímetros, um espeto de churrasco caindo em cima das latas de Coca-Cola que sobraram do Natal que eu me esqueci que existiam. Pensei que era um rato. O movimento suspeito parecia um rato. Ou um lagarto. Outro dia entrou um lagarto aqui em casa e se aconchegou de baixo do sofá da copa. Fiquei ali parado olhando para o lagarto durante meia hora e durante meia hora o lagarto permaneceu ali parado sem um movimento sequer além de piscar os olhos, então eu me levantei e fui tomar um banho. Não havia rato, no fim das contas só havia eu com um prato na mão. Prato o qual trazia uma vela acesa, sua luz mal iluminava meu caminho. É... eu me acostumei de mais com a modernidade da luz elétrica. O transformador da minha rua havia dado um estouro por causa da intensa chuva. Chuva com raios. O termo "chuva elétrica" me vem à mente, mas não sei o que isso significa. O rato? Apenas fruto da minha imaginação, provavelmente. Essa casa me assusta.

Entro na lavanderia num dia desses. Tudo limpo. Eu havia dado uma limpeza naquela manhã. Um cheiro de esgoto subia e impregnava minhas narinas. Eu quis vomitar. Eu vomitei. Corri até o tanque de lavar roupa. Aquele gosto ácido insuportável invade minha língua e deixa uma sensação horrível na minha garganta. Vejo algumas sementes de gergelim do hambúrguer que comi junto a um líquido nojento que suja minhas roupas que estão de molho. Eu lavando as roupas no dia seguinte. Lavar roupas. Levar vasilhas. Odeio tudo quanto é trabalho caseiro. Odeio essa casa. Odeio suas madeiras que seguram o telhado. Por causa delas eu mandei por um forro. Besteira minha. A intenção era forrar toda a casa. Cozinha, copa e sala foram forradas, então o dinheiro acabou. Os quartos ficaram sem forro e toda manhã de verão eu acordo sentindo falta de ar por conta do estremo calor. O cheiro de esgoto havia passado logo após eu lavar minha boca.

Ratos invisíveis, baratas que aparecem no canto do meu olho e desaparecem quando olho diretamente assim como as mariposas. Toda sorte de animais inexistentes. Eu sei que não existem. São frutos de minha mente. Imaginação. Ontem veio um dedetizador algumas horas antes do toró começar. Não encontrou nada. Pensando bem, são frutos dessa casa. Essa casa me faz ver e ouvir coisas inexistentes. Acho que a casa não gostou do forro que eu mandei colocar. Um forro branco contradizendo toda a escuridão da casa, tampando suas madeiras de sustentação escuras, tampando suas telhas escuras. Desde que o forro foi colocado os barulhos se intensificaram. A alvorada e o crepúsculo se tornaram momentos barulhentos, cheios de estalos. Todos que vem me visitar adoram a casa. Dizem que é confortável. Exceto pela machucada poltrona. Naquela noite, pouco depois de me assustar com o rato invisível eu me sentei arrastei a poltrona para a sacada para assistir às únicas luzes que me eram possíveis enxergar. Não eram estrelas. Muito embora a chuva tivesse acabado, havia muitas núvens no céu. Núvens. É estranho, mas sempre escrevi essa palavra com acento. Eu sei que não tem acento em núvem, muito menos em núvens, mas sempre que alguém corrige o que escrevo. Seja uma carta para um amigo, para a prefeitura, seja para onde for ou a merda que for, as pessoas me dizem: Núvem não tem acento.

Não havia estrela, luar e nem raios. Não havia TVs vizinhas ligadas, nem lâmpadas, só velas. Luzes de postes a nada iluminavam (inútil poste que não faz o que lhe é mandado). Somente motos e carros iluminavam a tal noite. Peguei minha viola caipira para tentar iluminar algo na minha alma, mas essa casa com seu tom coloquial lúgubre não permite que nenhum tom bucólico anime minha alma. Tudo que há são tons em preto e branco. Assombros e tristezas.

Leitores dos Boêmios