quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Nós artistas somos muito acomodados. Todos. Sem exceção. Músicos, escritores, pintores, strippers, modelos gostosas, putas... Gostamos de estar rodeados por homens ou mulheres, depende da opção de cada um. Eu por exemplo amo estar rodeado por gatinhas. Quanto mais, melhor!

Lembro-me quando eu era vagabundo, vadio. Eram meus melhores tempos de arte. Eu vivia por aí, fuçando em latas de lixo caçando o que comer. Pois é meu amigo, a vida para mim nem sempre foi fácil, mas esses meus tempos de pobre, eu posso te garantir, foram os melhores. Eu era forte! imponente! Eu tinha todas as gatas que eu quisesse. Em noite de lua cheia eu subia em um muro dum beco sem saída e cantava.

Ah! como são doces as lembranças. Era sempre assim, toda noite de lua cheia! na primavera então... hum! Apareciam as gatas mais ariscas e eu as dominava assim - miau! - só com o meu olhar super poderoso. Meus tempos de vagabundagem pelas ruas da cidade eram assim.

Não sei como é com vocês, mas as gatas de verdade não querem saber de grana - lógico que ter um conforto pode ser interessante - com nós gatos, você precisa mesmo ser assim: vagabundo, imponente e acomodado. Ser riquinho com bandeja de ração na hora que se quer não importa. Esses não são sujos e preguiçosos, eles são mesmo limpinhos e frescos. Não é à-toa que a maioria é castrada.

E, nós gatos, gostamos também das gatinhas mais vagabundas, que passem por nós exibindo seus lindos corpinhos e passando a cauda perto de nosso nariz. Essas que se fazem de difícil. E as que são difíceis de verdade são as melhores. Aquelas independentes que jogam na cara que somos apenas seus objetos! Ah... essas sim são quentes! Essas que gostamos, pois deixamos claro que elas são exatamente isso para nós! Aquelas fáceis de mais são apenas brinquedinhos como bolas de lã você brinca hoje e amanhã esquece. Aquelas que você diz: "Olá gatinha, vem satisfazer meus desejos" e elas se derretem facinho você as come hoje e descarta no dia seguinte.

Como eu disse, gatas gostam mesmo de vagabundos, imponentes e acomodados, mas quando se é artista, isso ajuda um tanto que você não faz idéia. Principalmente quando se é músico - o louco samba canção, ah! cantei muito samba canção para comer umas gatinhas lindas. Quando se é escritor, também pode ajudar. Mas o escritor poeta tem que falar de lances mais próximos das pessoas, e o amor de forma louca, absurda e encantadora. Talvez até mesmo de uma forma um pouco promiscua!

Hoje não sou mais gato de rua. Tenho casa, comida, tenho até minha caminha. Tudo isso em troca de um pouco de atenção. Quando fui adotado meu dono me obrigou largar a vagabundagem e a arte das ruas. Ainda bem que não fui castrado, preservaram meu sexo, ainda não sou gato de madame. Embora não iria adiantar muita coisa, já estou velho de mais para isso! E também já tenho muitos gatinhos por aí afora que nem conheço.

De vez em quando, em noite de lua cheia, eu tento fazer um som, ou quando vejo uma gatinha eu ouriço o pelo, faço aquela pose de Poderoso Chefão e dou uma piscadela só para ver o que acontece.

Hoje eu agradeço por ter sido adotado logo. Enquanto você é jovem, bonitão é tudo fácil! Mas quando se envelhece você fica jogado por aí ao vento, esperando que aconteça algum milagre. Já vi muitos gatos velhos assim na minha juventude. Eu ria deles. Agora fico pensando que não sei quanto tempo eu conseguiria sobreviver naquela vida vagabunda. Fui adotado no tempo certo, a velhice começava a surgir. É... eu estava ficando velho. Velho e careta talvez. Agora tudo que eu faço é ficar no colo do meu dono - também velho - e fico olhando a mocidade lá fora e pensando como essa mocidade está curtindo a vida.

Às vezes eu vejo meu velho se sentando na cadeira de balanço que fica perto da janela. Eu caminho assim, como um rei, até ele e com um salto paro em suas pernas. Ele me acaricia a cabeça e diz "E aí meu velho gato?". Então ele lá. Sentado em sua cadeira de balanço com seus olhos brilhantes fixos lá fora.

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