quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Diário de um Desconhecido XII

O dia aparece como sempre apareceu, mas mesmo assim eu sinto que hoje o será diferente. Saúdo a noite como sempre faço e saio a procura da felicidade, que algo queria me dizer. Só vejo a alegria me dizendo que a felicidade devia estar mais a frente. Continuo andando e encontro ela, a mais perfeita dos seres, a mais bela entre as mulheres, conversando com o amor, que nos apresenta. Conversamos um pouco até que eu me lembro o que estava fazendo. Ela oferece sua companhia enquanto eu procuro a felicidade. Volto a caminhar enquanto eu e ela nos conhecemos melhor. O amor nos acompanha, na verdade eu acho que o amor está sempre ao lado dela. Pouco depois nós encontramos a felicidade que já não lembrava mais o que queria me dizer. O tempo diz que já era hora de nos separarmos. Nós nos despedimos e ela vai embora, mas não sem antes eu lhe perguntar como eu faria para encontrá-la novamente. Ela responde que só o que eu deveria fazer é fechar os olhos e viajar para lá, pois certamente ela estará lá me esperando. E, quando não mais eu a vejo, me aparece o sono e, mais uma vez, eu tenho de voltar ao mundo dos sonhos.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Nós artistas somos muito acomodados. Todos. Sem exceção. Músicos, escritores, pintores, strippers, modelos gostosas, putas... Gostamos de estar rodeados por homens ou mulheres, depende da opção de cada um. Eu por exemplo amo estar rodeado por gatinhas. Quanto mais, melhor!

Lembro-me quando eu era vagabundo, vadio. Eram meus melhores tempos de arte. Eu vivia por aí, fuçando em latas de lixo caçando o que comer. Pois é meu amigo, a vida para mim nem sempre foi fácil, mas esses meus tempos de pobre, eu posso te garantir, foram os melhores. Eu era forte! imponente! Eu tinha todas as gatas que eu quisesse. Em noite de lua cheia eu subia em um muro dum beco sem saída e cantava.

Ah! como são doces as lembranças. Era sempre assim, toda noite de lua cheia! na primavera então... hum! Apareciam as gatas mais ariscas e eu as dominava assim - miau! - só com o meu olhar super poderoso. Meus tempos de vagabundagem pelas ruas da cidade eram assim.

Não sei como é com vocês, mas as gatas de verdade não querem saber de grana - lógico que ter um conforto pode ser interessante - com nós gatos, você precisa mesmo ser assim: vagabundo, imponente e acomodado. Ser riquinho com bandeja de ração na hora que se quer não importa. Esses não são sujos e preguiçosos, eles são mesmo limpinhos e frescos. Não é à-toa que a maioria é castrada.

E, nós gatos, gostamos também das gatinhas mais vagabundas, que passem por nós exibindo seus lindos corpinhos e passando a cauda perto de nosso nariz. Essas que se fazem de difícil. E as que são difíceis de verdade são as melhores. Aquelas independentes que jogam na cara que somos apenas seus objetos! Ah... essas sim são quentes! Essas que gostamos, pois deixamos claro que elas são exatamente isso para nós! Aquelas fáceis de mais são apenas brinquedinhos como bolas de lã você brinca hoje e amanhã esquece. Aquelas que você diz: "Olá gatinha, vem satisfazer meus desejos" e elas se derretem facinho você as come hoje e descarta no dia seguinte.

Como eu disse, gatas gostam mesmo de vagabundos, imponentes e acomodados, mas quando se é artista, isso ajuda um tanto que você não faz idéia. Principalmente quando se é músico - o louco samba canção, ah! cantei muito samba canção para comer umas gatinhas lindas. Quando se é escritor, também pode ajudar. Mas o escritor poeta tem que falar de lances mais próximos das pessoas, e o amor de forma louca, absurda e encantadora. Talvez até mesmo de uma forma um pouco promiscua!

Hoje não sou mais gato de rua. Tenho casa, comida, tenho até minha caminha. Tudo isso em troca de um pouco de atenção. Quando fui adotado meu dono me obrigou largar a vagabundagem e a arte das ruas. Ainda bem que não fui castrado, preservaram meu sexo, ainda não sou gato de madame. Embora não iria adiantar muita coisa, já estou velho de mais para isso! E também já tenho muitos gatinhos por aí afora que nem conheço.

De vez em quando, em noite de lua cheia, eu tento fazer um som, ou quando vejo uma gatinha eu ouriço o pelo, faço aquela pose de Poderoso Chefão e dou uma piscadela só para ver o que acontece.

Hoje eu agradeço por ter sido adotado logo. Enquanto você é jovem, bonitão é tudo fácil! Mas quando se envelhece você fica jogado por aí ao vento, esperando que aconteça algum milagre. Já vi muitos gatos velhos assim na minha juventude. Eu ria deles. Agora fico pensando que não sei quanto tempo eu conseguiria sobreviver naquela vida vagabunda. Fui adotado no tempo certo, a velhice começava a surgir. É... eu estava ficando velho. Velho e careta talvez. Agora tudo que eu faço é ficar no colo do meu dono - também velho - e fico olhando a mocidade lá fora e pensando como essa mocidade está curtindo a vida.

Às vezes eu vejo meu velho se sentando na cadeira de balanço que fica perto da janela. Eu caminho assim, como um rei, até ele e com um salto paro em suas pernas. Ele me acaricia a cabeça e diz "E aí meu velho gato?". Então ele lá. Sentado em sua cadeira de balanço com seus olhos brilhantes fixos lá fora.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Nomes e Nada Mais

Parece que vai começar a chover, minha carona bem que poderia chegar logo. Sem mais o que fazer eu resolvo olhar as pessoas a minha volta e... olha, mas não é uma antiga colega do ensino médio que vem ali? Sim, é ela mesmo. Ela está diferente mas ainda a reconheço, como poderia me esquecer das longas horas em que passamos jogando truco ao invés de estudar? Bons tempos aqueles em que se preocupar com a nota no fim do ano era o maior dos meus problemas e nem era assim um problema muito grande. Ao que parece ela não me reconheceu, ou fingiu não me reconhecer, na verdade acho que ela sequer me viu. Não faz mal, eu chamo ela:

_ Ô... Mas como ela se chama mesmo? Aline? Carol? Luana? Não! Tenho quase certeza que o nome dela começava, ou começa, com A. Ana? Amanda? Adelaide? Abigail? Alessandra? Adriana? Alice? Não, não. A única Alice que eu conheço é a da história do Lewis Carrol (até tem outra Alice, mas é melhor não pensar nela agora). Talvez seja Andressa, Angélica, Augusta, Aurora, Amélia (ela é que era mulher de verdade, ou não?). Araci? Aparecida? Anita? Antônia? Aleluia? (Aleluia? Será que existe alguém com esse nome? Bem do jeito que são as coisas não dúvido nada que exista). Desisto, não vou conseguir lembrar o nome dela, talvez eu deva apenas tentar chamar sua atenção com um aceno de mão, um oi ou apenas um leve toque no ombro dela e... ué, cadê ela? Tenho certeza que ela estava aqui agora mesmo.

E agora, o que faço? Devo ir procurá-la mesmo debaixo dessa chuva toda? Ou será que... Opa, minha carona chegou, melhor deixar isso prá lá.


.......


Ah, sim! O nome dela era Júlia.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Diário de um desconhecido XI

Que tédio, nada de interessante acontece. Cansado de não fazer nada eu apenas fecho os olhos e viajo, viajo para lá. Lá eu vejo a terra e o céu se encontrando no horizonte, ouço o rio correndo por entre a relva e sinto a brisa suave que acaricia calmamente as árvores. É um mundo totalmente novo e diferente. Eu procuro mas não acho ninguém. Eu procuro mas não acho, não, nem mesmo vejo a vida, a morte, o tempo. Eu procuro mas... Eu ouço uma doce canção. Eu procuro e acho ela, aquela que a mais bela voz possui. Eu apenas me aproximo mais para poder ouvir melhor aquela voz tão suave que tanto me encanta e hipnotiza, é como se eu estivesse ouvindo um anjo de Deus. Enfim termina a canção e, então, ela volta sua atenção para mim e pergunta o que eu achei. Eu respondo que jamais escutara canção tão magnífica quanto essa. Ela agradece e me pede que lhe cante algo mas eu lhe digo que eu nunca fui um bom cantor. Ela, então, pergunta-me se eu sei declamar poesia e eu respondo apenas que não se compara a ela cantando, mas, se ela quiser, eu declamo assim mesmo. Ela consente. Nem bem termino de declamar e ela aplaude dizendo que eu havia sido incrível e me pede que eu declame outra poesia a ela. E eu declamo outra, e outra, e outra. Ficamos assim nesse mundo de poesias até que eu volto a esse mundo pois o sono já estava impaciente e, finalmente, eu faço o que ele tanto quer: volto ao mundo dos sonhos.

Leitores dos Boêmios