quinta-feira, 11 de novembro de 2010

O começo de tudo foi como uma mentira mal contada. O tom bucólico de minhas lembranças é como a lugubridade kerouaciana que adentra de Tristessa para todo o meu ser, minh'alma.

Olho-me no espelho. Nu. Meu corpo magro e nobremente e lugubremente pálido é como uma agulha de bússola desimãtizada e jogada num palheiro. Meu corpo, minh'alma, meus pêlos. Todos os pêlos. Dos que se concentram ao centro do meu peitoral até a linha que corre pela minha magra barriga até o umbigo e do umbigo desemboca-se num mar de pêlos pubianos. Meu pau molemente olha para baixo. Uma imagem refletida no espelho, um cabeludo pelado, me olha, me encara, desvenda minh'alma.

Eu me desvendo e me escondo de mim mesmo.

Arrasto-me do banheiro até o quarto. Minha cabeleira tampa meus olhos. Minha imagem nua se arrasta como um cara fraquejado e entorpecido. Um bêbado que bambeia as pernas e põe as mãos tampando a boca para conter o vomito. Imaginou essa imagem indigna? Essa foto deprimente? Pois é exatamente assim. Saindo pelado do banheiro à copa, da copa ao quarto. Intermináveis pequenos corredores.

Um mundo de pequenos infinitos corredores. Até chegar a seus fins. A trágica luz solar se desprende de algum lugar no infinito e entra tremula em meu quarto ligeiramente escuro e completamente abafado. O suor que se desprende de meus poros não conseguem se evaporar facilmente. Um mundo de vapor ocupa invisivelmente meu quarto e me joga para fora do quarto super-aquecido-e-super-abafado-pela-força-calorenta-das-telhas-de-amianto.

Expulso do meu próprio quarto me dirijo àquela sala escura de janelas fechadas e ligo o ventilador. Deito-me no sofá o velho sofá confortável e macio. O velho sofá confortável e macio e inacreditável tenta me transportar para outros mundos a cada vez que fecho os olhos. O velho sofá confortável e macio e inacreditavelmente tenta me transportar para outra dimensão, mas essa viajem inter-dimensional me deixa ainda mais enjoado e com uma vontade ainda maior de vomitar e por isso eu abro os olhos: Para fugir da viajem interespacial.

Quero gritar. Quero fugir. Quero correr daqui para outro lugar. Qualquer lugar que não seja aqui, mas não posso sair. Não sei a chave da sala. A porta da sala me manda para um lugar mais claro e menos dolorido. O outro lado para fora da sala se chama liberdade e a liberdade não me causa vômitos. Não mais. Eu só preciso achar aquela maldita chave.

Arrasto-me pelos cantos derretendo em suor procurando pela maldita chave. A chave de meus sonhos. A chave que me tirará desta maldita casa abafada e me levará ainda desnudo para a liberdade de ventos que baterão em meus cabelos e refrescarão minha nuca. Eu me arrasto para cima duma cadeira e procuro em cima de armários e guarda roupas. Eu rastejo pelo chão procurando em baixo da geladeira, em baixo dos sofás, das camas, do fogão, mas a chave não está em lugar algum.

Estou passando mal. Estou morrendo. Tento conter o vômito, novamente. Mas o vômito chega forte e o sinto queimar e cortar garganta acima enquanto eu corro de volta ao banheiro e me pondo ajoelhado ao vaso sanitário jogo para fora aquele líquido nojento que mistura restos do meu almoço e algum tantinho de sangue.

Ouço o som de um metal bater na cerâmica da privada. E olho meu vomito sanguíneo se misturando à água e a chave da sala lá no fundo do vaso.

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