quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Diário de um Desconhecido X

Abro os olhos e vejo que está escuro, mas não sei se é noite ou se é dia. Sinto a vida, a morte e o tempo me envolvendo, tomando conta de mim. Ouço-as dizendo que enquanto eu permanecer neste mundo nós cinco estaremos sempre juntos. Olho o sol e vejo a lua. Observo esse mundo ao meu redor. Tudo aqui é novo, diferente, estranho para mim. A vontade que eu tenho é explorar o mundo, conhecer tudo o que há nele. Ver, ouvir e sentir tudo de bom que existe nesse mundo. Minha curiosidade é enorme, mas o tempo vem dizer que isso está fora dos planos, pois, na verdade, eu já estava adiantado. Ele diz que eu ainda não deveria estar aqui, isso prejudicou os planos. Dizem-me para não me preocupar pois o tempo está sempre reclamando, mas, como eu poderei ver, ele é um bom amigo. A felicidade, a fome, a tristeza e a ingratidão chegam para darem as boas vindas, a alegria é a mais presente. Conheço o dia, que, nesse dia, está radiante, e a noite, bela e misteriosa. Todos querem aproveitar a ocasião e comemorar. Isso me parece legal até que o conselho me apresenta o cansaço, o qual me diz que o melhor para mim seria descansar. E é então que eu percebo o quão cansado eu estava e, por fim, o sono chega me convidando a ir conhecer o mundo dos sonhos.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

O começo de tudo foi como uma mentira mal contada. O tom bucólico de minhas lembranças é como a lugubridade kerouaciana que adentra de Tristessa para todo o meu ser, minh'alma.

Olho-me no espelho. Nu. Meu corpo magro e nobremente e lugubremente pálido é como uma agulha de bússola desimãtizada e jogada num palheiro. Meu corpo, minh'alma, meus pêlos. Todos os pêlos. Dos que se concentram ao centro do meu peitoral até a linha que corre pela minha magra barriga até o umbigo e do umbigo desemboca-se num mar de pêlos pubianos. Meu pau molemente olha para baixo. Uma imagem refletida no espelho, um cabeludo pelado, me olha, me encara, desvenda minh'alma.

Eu me desvendo e me escondo de mim mesmo.

Arrasto-me do banheiro até o quarto. Minha cabeleira tampa meus olhos. Minha imagem nua se arrasta como um cara fraquejado e entorpecido. Um bêbado que bambeia as pernas e põe as mãos tampando a boca para conter o vomito. Imaginou essa imagem indigna? Essa foto deprimente? Pois é exatamente assim. Saindo pelado do banheiro à copa, da copa ao quarto. Intermináveis pequenos corredores.

Um mundo de pequenos infinitos corredores. Até chegar a seus fins. A trágica luz solar se desprende de algum lugar no infinito e entra tremula em meu quarto ligeiramente escuro e completamente abafado. O suor que se desprende de meus poros não conseguem se evaporar facilmente. Um mundo de vapor ocupa invisivelmente meu quarto e me joga para fora do quarto super-aquecido-e-super-abafado-pela-força-calorenta-das-telhas-de-amianto.

Expulso do meu próprio quarto me dirijo àquela sala escura de janelas fechadas e ligo o ventilador. Deito-me no sofá o velho sofá confortável e macio. O velho sofá confortável e macio e inacreditável tenta me transportar para outros mundos a cada vez que fecho os olhos. O velho sofá confortável e macio e inacreditavelmente tenta me transportar para outra dimensão, mas essa viajem inter-dimensional me deixa ainda mais enjoado e com uma vontade ainda maior de vomitar e por isso eu abro os olhos: Para fugir da viajem interespacial.

Quero gritar. Quero fugir. Quero correr daqui para outro lugar. Qualquer lugar que não seja aqui, mas não posso sair. Não sei a chave da sala. A porta da sala me manda para um lugar mais claro e menos dolorido. O outro lado para fora da sala se chama liberdade e a liberdade não me causa vômitos. Não mais. Eu só preciso achar aquela maldita chave.

Arrasto-me pelos cantos derretendo em suor procurando pela maldita chave. A chave de meus sonhos. A chave que me tirará desta maldita casa abafada e me levará ainda desnudo para a liberdade de ventos que baterão em meus cabelos e refrescarão minha nuca. Eu me arrasto para cima duma cadeira e procuro em cima de armários e guarda roupas. Eu rastejo pelo chão procurando em baixo da geladeira, em baixo dos sofás, das camas, do fogão, mas a chave não está em lugar algum.

Estou passando mal. Estou morrendo. Tento conter o vômito, novamente. Mas o vômito chega forte e o sinto queimar e cortar garganta acima enquanto eu corro de volta ao banheiro e me pondo ajoelhado ao vaso sanitário jogo para fora aquele líquido nojento que mistura restos do meu almoço e algum tantinho de sangue.

Ouço o som de um metal bater na cerâmica da privada. E olho meu vomito sanguíneo se misturando à água e a chave da sala lá no fundo do vaso.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Diário de um Desconhecido IX

Ouço um grito e vejo que é a solidão cansada da conversa tola do silêncio. Os dois conversam com a discussão e descobrem-se sozinhos. Eu rio de tudo aquilo e volto a caminhar. Observo a vida, a morte, o tempo enquanto eles acompanham a pequena excursão no deserto negro. Vejo o tudo no ar e escuto o nada ao meu lado. Percebo que este e um mundo realmente intrigante, até parece mágica. Tudo aqui é interessante. É interessante como tudo aqui é diferente, nunca é a mesma coisa. Esse mundo nunca muda, está igual a quando eu cheguei aqui. E é por isso que tudo me esquece, tudo me lembra. Nesse mundo eu nunca me encontro e é nesse mundo que e um me encontro mais. Aqui eu posso ser eu mesmo, aqui eu posso ser quem eu quiser. Aqui todos fazem o que querem, todos fazer o que eu quero. Nesse mundo tudo é natural, tudo é como eu quero. Continuo caminhando enquanto o pensamento voa. O mundo parece voar ao meu lado, sumindo no horizonte enquanto eu observo tudo o que acontece ao meu redor. Parece que nesse momento eu paro de existir, só esse mundo existe. Parece que eu sou o mundo e o mundo sou eu. Quase não ouço o sono que já estava me chamando de volta ao mundo dos sonhos.

Leitores dos Boêmios