terça-feira, 12 de outubro de 2010

Eu andava pela rua. Noite. Carros. Luzes. Pessoas. Praças. Praças. Todo o tipo de clichê de um frustrado filme de romance. Todo o tipo de clichê de um blues qualquer tocado magicamente num saxofone ou num trompete mágico. Um mago do trompete nos dias de hoje é isso que eu preciso ouvir. Pessoas estão morrendo por aí. Pessoas estão nascendo. Pessoas estão trepando. Eu estou caminhando. Olhares mágicos do outro canto da rua me atraem, não são olhares de gentes, nem de felinos ou outros tipos quaisquer de animais. É um olhar torto e estranho e mítico, talvez seja algum tipo de deusa divina vinda dos universos paralelos só para me dizer alguma coisa. Alguma Marylin Monroe vinda do mundo dos mortos para me falar como é lá e me contar todo o seu poder orgásmico que esconde em seu monte de Vênus.

Mas não. Não são olhos orgásmicos. Não são pontas de cigarro. Não são vaga-lumes. São olhos sim, mas tristes olhos sombrios e não são olhos de uma deusa bardot, nem de um deus gainsbourg. São os olhos de um boêmio qualquer vagando triste do outro lado da rua. Sou eu. Meu corpo vagando solitário explorando aqueles cantos enquanto meu pensamento explora este.


Tem bêbados mijando numa árvore. Gol prata parado. Um bêbado dum lado da árvore. Outro bêbado do outro lado da árvore. Há um terceiro bêbado mijando nos portões duma loja. Há gente aparecendo do outro lado e olhando - não olham os ébrios, não eles não estão nem aí. Tem diversões maiores que olhar pintos moles mijando em árvores - eles só vinham olhando a si mesmos, conversando consigo sem causar distúrbio a ninguém.

Meia hora antes: Eu não vou mijar na rua! Não vou contribuir para o fedor da cidade. Cara, a cidade já fede mijo com ou sem a sua mijada. Eu não vou mijar na rua, eu estou bêbado, mas ainda tenho minha dignidade. Cara, bêbados não tem dignidade.

Não os bêbados não têm dignidades. Bêbados são ímpios por natureza. Bêbados não têm cronologia, bêbados onde morrer. Bêbados batem punheta à luz do Sol se quiserem. Mas boêmios não. Boêmios têm toda dignidade do mundo por mais bêbados que estejam, boêmios tem a dignidade boêmia. Boêmios não precisam bater punheta à luz do Sol porque boêmios tem em suas noitadas putas para lhes sorrir e satisfazer. Boêmios são artistas por natureza. Pintores, escritores, músicos, cartunistas.

Mas eu não sou boêmio. Não, certamente eu não sou. Sou apenas um qualquer vagando numa rua qualquer, passando por uma praça qualquer, com um copo qualquer que traz apenas água adocicada e limão em seu conteúdo, porque a cachaça já foi embora e o gelo já se derreteu. Eu fico pensando naquela menina assim como o Blitz, mas eu não encontrei o broto e por causa disso não pude pagar uma porção de batatas fritas a ela. Ainda bem, porque meu dinheiro acabou na última caipirinha e não tenho grana nem mesmo para voltar para casa. Talvez eu possa mendigar algum dinheiro ou talvez eu possa ir a pé pra casa. Ou talvez eu possa me deitar num desses bancos da Raul Soares de dormir, mas está fazendo frio pra burro para ficar parado de qualquer forma. É uma fria noite de maio. Ou madrugada talvez. Quantas horas são? Eu saberia se não tivesse perdido meu relógio eu se eu ao menos pudesse confiar nesses relógios digitais que ficam espalhados pela cidade em estranhos postes de propagandas, mas estão todos sempre atrasados.

É nesses momentos que eu penso que há poucas coisas nessa vida que são realmente reais. Uma dessas coisas é o meu velho toca fitas lá em casa que toca os blues míticos da voz mágica de Janis Joplin num louco amanhecer enquanto eu viro a noite bebendo. Sim! Isso é real. É muito real. E eu sinto saudades do meu toca fitas lá em casa e sinto saudades da viajante voz de Janis Joplin preenchendo o meu pensamento com sua voz rouca mágica. Acho que estou passando por algum tipo de Blues Kozmico sem saber. Não sei. Quero voltar pra casa e ouvir aquela fita curtindo essa mesma embriaguez louca e estranha que estou curtindo neste exato momento.

Me canso de andar aqui na Raul Soares mesmo. Me sento num banco qualquer sentindo um frio do caralho invadir todo meu corpo e fazer meus ossos tremerem. Meu ombro dói. Na verdade meu ombro dói muito. Meu ombro direito sempre dói quando faz frio, e o frio de hoje está fazendo meu ombro doer muito. O dia começa a clarear. Putamerda! passei tanto tempo andando? Vejo o movimento se iniciar, na verdade o movimento já se iniciou há algum tempo. E eu sonho com minha casa, minha cama, meu travesseiro. É uma manhã de segunda-feira que está se levantando e se esta segunda amanhece só significa uma coisa para mim. Só me resta uma coisa.

Me levanto e caminho pro trabalho.

Um comentário:

  1. Adoro textos sobre o cotidiano... Acho os detalhes de simples fatos da vida de uma pessoa tão fascinantes...

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