quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Diário de um Desconhecido VII

Passa a vida, passa a morte; seja como o suave vento de uma brisa, seja como o vento furioso de um furacão. Passa o tempo, o dia, a noite. Vejo o sol, a lua, a estrela. Passam o segundo e o minuto, vão tão rápidos que quase não se vê; a hora passa já não tão veloz, talvez porque não é mais tão nova assim; passa o dia, bem mais calmo que os anteriores, mas não tão calmo quanto o mês, que passa sem pressa de viver; passa o ano, calmamente observando o mundo e cumprimentando a todos enquanto aproveita a companhia e a conversa das quatro estações, cada uma carregando algo em suas mãos. Passam o sentimento e a emoção, passa a tristeza, a alegria; passa o ódio, o amor. Passa o tempo, o dia, a noite; passa a calma, passa a raiva. Passa a fome e a sede; passa o sono, passa a dor. Passa o dia, passa o ano, o segundo e o minuto. Passa a vida bem intensa; passa a morte, as vezes lenta. Passam mundos ou lugares, rios ou desertos. Passa o mês, nunca igual; passa ele outra vez. Passa a lua, passa o sol; passa a estrela e o cometa. Passa a vida ainda calma, passa a morte sem demora. Passa tudo, passa nada e eu aqui parado, sempre ao lado dela. Passa nada, passa tudo até que o sono de novo venha ao mundo dos sonhos nos levar.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

OWL - One Way Love

Vou deixando aqui no baú dos favoritos um dos vídeos mais bacanas que eu vi nos últimos tempos. OWL - One Way Love é 1 minuto e 58 segundos de uma indescritível declaração de amor - pois afinal, os brutos também amam - com texto, roteiro, edição, atuação e o que mais for possível de Agatha Sampaio (e o fodão do Miles Davis soprando seu trompete melodicamente ao fundo).





"Todas as cartas de amor são
Ridículas. (...)
Mas, afinal, 
Só as criaturas que nunca escreveram 
Cartas de amor 
É que são 
Ridículas."
Álvaro de Campos

quarta-feira, 8 de setembro de 2010


É noite, a lua não apareceu, mas apareceram as estrelas. Chegam as nuvens, começa a chover. Apesar da escuridão é possível ver um triste vulto movendo-se solitariamente por entre uma antiga viela.

Sinto a chuva, olho para o céu
Estrelas caem, deixam um rastro no espaço
O céu está a desabar, junto dele está a Terra
Será isso um sonho ou o fim do mundo?


A chuva aumenta, as nuvens cobrem todo o céu fazendo desaparecer as estrelas. Quase não se vê nem se ouve nada além da chuva e do vulto caindo.

Tudo desabou, meu mundo acabou
Sou atirado ao nada, mergulho na escuridão
Estou só, caindo em um abismo sem fim
Irá alguém me salvar?


A chuva começa a diminuir. O vulto se ergue e se vê perante um enorme portão. Devido a escuridão nada se pode ler nele.

Meu corpo flutua no infinito, enfim chego ao fim
Sinto-me fraco, não sei mais como continuar
Abro os olhos e vejo-me perante um enorme portal
Seria essa a entrada do inferno ou do paraíso?


Cessa a chuva e as nuvens começam a se dissipar. O vulto abre o portão e entra no que parece ser um velho casebre. Enquanto a lua desponta no céu um cachorro uiva para a recém chegada.

Atravesso o portal e vejo uma luz no fim do túnel
Ouço meu nome, sinto um perfume
Guiado pela voz eu vou em busca da luz
Para onde estarei eu indo?


O céu se abre de novo e as estrelas reaparecem. O vulto atravessa o que um dia já foi um jardim e para perante outro vulto.

A luz me envolve, estou no mais belo jardim
Esterlas sobem ao céu, um anjo me cumprimenta
De mãos dadas com ela eu subo ao céu
Estou no paraíso


O sol aparece no horizonte iluminando toda a Terra. Sobe ao céu revelando tudo o que a noite tentou esconder. Iluminando um anjo caído


Imagem retirada da internet

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Poema Urbano nº 3 (Faces)

Assim os ônibus vão passando
Como uma louca balada triste
Assim todos se transformam
Em algo que não existe
E garotas maquiadas
Trazem em suas faces rubras de desejo
A vontade da umidade entrepernas

Ruas metamórficas apaziguam os solitários
Em suas roupas pretas e vermelhas
Preocupados, sem mulheres.
São anjos da noite maliluminada
Fazendo da noite seu dia
Brincando de sexo e putaria
Anjos maliluminados trazendo na tez branca
Uma palidez desmenaninizada

Sem céu, sem chão.
Um mundo caído ao léu
Vão poucos voando, esgueirando em becos
Procurando faces rubras de sangue a flor da pele
Saltitantes progesteronas virginais

Assim como o dia vai passando
Nas calçadas metamorfoseadas
Das belezas de vestido curtinho
Fazendo festas com brinquedinhos
Assim como os ônibus desgastam seus pneus
A folga diminui e resgata lembranças
Negras, poluídas, cheias de pecados gostosos

Foto: Vida noturna, de O Trovador das Gerais

Leitores dos Boêmios