sábado, 10 de julho de 2010


Acordei cedo hoje; mais cedo que o de costume. A noite ainda imperava no quarto. Quantas horas? Três? Quatro? Certamente não é cinco, no horário de verão o dia amanhece mais cedo que o de costume. Costume. O costume está impregnado correndo em minhas veias. Meu Deus! Dez horas?! E este escuro, o que é?


Uma escuridão mais negra que um olho fechado. Acendo a lâmpada. Dez vivas ao interruptor. A luz branca invade e inunda meu quarto e tudo fica tão claro que eu não consigo enxergar porra nenhuma além da luz branca violenta, sanguinária e tortuosa; a luz branca que fere meus olhos com a loucura de um recém viciado com sintomas de abstinência. Logo aos poucos começo a conseguir enxergar meu quarto, a luz branca amarelou-se.


Estou nu, deitado em minha cama e sinto alguma coisa grudada nas costas da minha mão, na divisa donde nascem o polegar e o indicador. É uma meleca seca. Meleca de nariz, ao que parece. Coço-a usando o meu indicador da mão direita – seria o polegar? – e ela se esfarela. A cama descoberta por sonhos e pesadelos do álcool. Minha bochecha direita molhada de baba, ou seria vômito? – não, é baba mesmo.



Ouço vozes e me levanto. Vozes que ouço vindas da cozinha. Abro a porta e entro num corredor. Um corredor imenso e apertado e úmido e ligeiramente ácido, uma gruta. Entro molhado de suor, um suor que não evapora por causa da umidade que me rodeia. Vou pisando em pedras, até as pedras estão ligeiramente quentes; calor infernal! Apalpo paredes pedregosas e estranhamente viscosas e miro um ponto único à minha frente. Um único ponto que eu enxergo alguma coisa: Luz! As vozes vem de lá.


Teria alguém invadido minha casa? Vozes femininas desconhecidas. Vozes provindas da cozinha. Lembro de um sonho que tive há um tempo. Um sonho estranho e temeroso em que eu via minha própria mão segurando uma caneta de tinta negra feito um universo sem planetas, cometas, estrelas e essas outras coisas; negra feito um universo vazio, de repente eu não sinto mais minhas pernas. Ouço alguém sussurrando coisas estranhas em minha cabeça: “Napoleão sentou-se em seu trono, ele havia trocado seu chapéu por um chapéu cônico. Batia uma punheta enquanto admirava uma pintura de Joana D'Arc. Hão os franceses me matar por causa de um sonho tosco?


Chego à cozinha. Limpa feito... não me vem nada de limpo à mente para fazer uma comparação, mas os azulejos são brancos feito nuvens num dia ensolarado e azul. Há mulheres nuas e bonitas feitos putas jovens e iniciantes preparando o almoço. São onze e meia e o almoço está quase pronto e meu estômago ronca de fome tão alto que chama a atenção das mulheres e elas olham para mim com um sorriso negro mostrando todos seus dentes brancos – sorrisos negros e traidores e brancos e sinceros. Seis olhos me filmam de forma maligna e afetuosa ao mesmo tempo e me mandam sentar pois o almoço está quase pronto. Já, já termina.


Uma hora de meia caminhando numa caverna escura logo após acordar é de matar qualquer um de fome e com uma comida tão gostosa quanto essa, logo após, também, esperar uns quarenta minutos até o almoço ficar pronto - “Já, já termina” - eu como umas três pratadas. Nós quatro nus em um almoço simples com gosto meio de roça, meio de cidade. Após o almoço beijo cada uma delas em agradecimento e digo que eu irei lavar as vasilhas. Cerca de 45 minutos ou uma hora para terminar – eu não sabia que para fazer uma boa comida tinha que sujar tanta coisa – e a pia entope. Pego o desentupidor e começo com aqueles movimentos frenéticos para cima e para baixo enquanto eu praguejo até que, por fim, a água corre ralo abaixo numa força tremenda que puxa para dentro do ralo outras coisas que estão à sua volta. Como o ar, a água que espalhou pela cozinha enquanto eu desentupia, o desentupidor vai embora também e até mesmo eu sou puxado para dentro do ralo – buracos negros chupam estrelas – vou cano abaixo – rio abaixo – estou nadando num rio que desagua num lago e as luzes estão apagadas – caio numa cama de casal, as três mulheres assistem um filme pornô, caio tão leve quanto Alice ao chegar no País das Maravilhas.


Beijo os lábios da mais morena, com uma das mãos agarro sua bela nuca, com a esquerda exploro seu clitóris. As mãos de uma das branquelas alisa todo o corpo dessa morena que eu me dano a beijar, às vezes as mãos chegam cegas à buceta da morena e – meu corpo colado à morena – dali saltam para meu pau e ela me masturba por um instante e depois volta ao corpo suado da morena. Enquanto isso a terceira mulher – outra branquela de cabelos pretos, no entanto mais pálida – abre uma garrafa de vinho e pega os comprimidos e terminamos tudo dormindo felizes de orgasmos até a alma. Nós quatro bêbados e drogados. Durmo feliz abraçado num emaranhado de seis braços femininos.


Acordo... parece que acordei bem cedo, ainda está bastante escuro. Acho que devem ser umas três ou quatro da manhã. Não sei ao certo, mas acho que não é cinco, pois no verão o Sol nasce mais cedo. Olho no relógio. Dez horas. Que merda, que escuridão é essa? Acendo a luz. Tem meleca seca grudada na minha mão esquerda e a cama está desarrumada por pesadelos de bebida. Levanto e caminho até a janela Ela está aberta. Tudo escuro lá fora. Será um eclipse? Diabo!


A luz do meu quarto tenta iluminar a noite lá fora, mas a noite é mais densa e parece engolir a luz. Sozinho e pelado no meu quarto sinto cheiro de porra, mas eu não consigo me lembrar de nada de ontem. Só me lembro de um sonho que tive há um tempo: Dom Pedro Segundo com sua maioridade antecipada fazia uma orgia dentro da sala real convidando as maiores celebridades em putaria, inclusive a Mãe Joana, dona de um bordel da capital do país e Ana Chupetinha, uma filha de escrava mestiça de negra com índio e que tinha como principal hobby lamber pintos desconhecidos em troca de cigarros e cachaça, enquanto isso todos eram observados pelos olhos duma pintura, a avó e Pedro, Carlota Joaquina que recebia um oral de sua sogra, a Louca.

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