quarta-feira, 28 de julho de 2010

Diário de um Desconhecido VI

É cedo, cedo até demais, nunca havia acordado tão tarde. Pergunto ao tempo que horas são e ele apenas diz não saber. Só então eu percebo sua presença e olho em sua direção. Vejo-a sentada a meu lado, calma e pensativa. Sento-me a seu lado , fecho os olhos e posso então viajar de volta ao nosso lar. E lá eu a encontro dormindo na rede que está entre as arvores. Eu apenas me sento tranqüilamente sob a arvore a seu lado sentindo o doce aroma das flores enquanto o vento acaricia suavemente a relva e a vida segue seu rumo sem pressa. Pássaros e pequenos insetos pairam no ar enquanto outros animais exploram nosso jardim. Ela acorda e eu lhe desejo bom dia ao que ela responde dizendo que finalmente eu acordei. Peço-lhe desculpas pois não sabia que ela estava me esperando e ela diz não haver problema pois ela gosta de ficar me observando, seja acordado ou não. Conversamos o dia todo sobre a vida; sobre nós e nossos mundos. Discutimos sobre o passado, o presente e o futuro; sobre o tempo, a vida e a morte. Dizemos não tudo o que queremos, mas tudo o que podemos, até que abro os olhos pois o sono, acompanhado do tempo, diz-nos que não deveríamos ainda estar aqui. Nós temos de nos despedir para, enfim, voltarmos ao mundo dos sonhos.

sexta-feira, 23 de julho de 2010


Sua face quebrada em mil outras faces nas faces dos cristais, cristais que traçavam uma linha pelo espaço sideral. A linha do tempo. O tempo à velocidade da luz. Sua mente traçava mil planos, mil crimes, mil linhas de pensamento que se curvavam no buraco de minhoca e voltava para o préterito-do-futuro em cerca de novecentos milhões de zilhões de um microsegundo em forma de uma lágrima. Uma lágrima e outra e outra e mais outra. O que sua mente planeja olhando a si naqueles cristais?


Mil planos, mil ações, mil e quinhetos e tantos anos. O toca discos rodava um disco antigo arranhado uma vez o 'maybe, maybe, maybe" ficou infinito como a luz que se propaga milhões de anos pela esfera do espaço desde o dia em que foi gerada naquela estrela distante que morreu de velhice enquanto sua filha, a luz, ainda está no auge de sua juventude. O que haveria a mais naquele vinho? Ou o que haveria a mais naquela mente, naquela face estática? O que haveria a mais naquele coração que bate cada dia mais lento um pouco. O que haveria a mais naquela tristeza infinda? Aquela tristeza sem luz. Onde estaria aquela luz poetica que acompanhava a sua tristeza e por que aquele corpo nu jaz agachado no banheiro com a cabeça encostada na parede enquanto as águas dum chuveiro escorrem pelos seus ombros e as águas salgadas da tristeza escorrem pelos seus olhos?

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Diário de um Desconhecido V

É estranho. Eu sinto que ainda não tarde nem é cedo, mas ao observar o horizonte não é isso que eu percebo, me parece que ainda estou e entre o dia e a noite. Saio para ver o que há e encontro o dia e a noite discutindo. Sei que não é muito educado fazer isso, mas eu tenho que ajudá-los antes que o tempo chegue reclamando do atraso deles. Eu pergunto aos dois qual é o problema e eles dizem que estavam discutindo para ver quais dos dois é o mais belo, ou bela, e começam a descrever suas belezas. O dia diz que nada é mais belo que um dia ensolarado, com um lindo céu azul e algumas nuvens para enfeitar, ao que a noite revida dizendo que uma clara noite de lua cheia, com um céu sem nuvens mas com muitas estrelas é bem mais bela. O dia, então, pergunta se a noite já chegou a ver como apenas ele deixa um campo florido mais bonito. A noite responde que não e pergunta se o dia já havia visto a beleza que existe ao olhar por sobre um mar de nuvens com a lua cheia ao fundo. Só que antes de o dia responder, tentando acabar com a discussão, eu os lembro de dois exemplos da beleza deles: o nascer do sol e o pôr do sol, dois momentos de extrema beleza. Isso parece acalmá-los pois eles terminam a discussão enquanto eu volto para o mundo dos sonhos em companhia do sono, que tanta graça viu na discussão.

sábado, 10 de julho de 2010


Acordei cedo hoje; mais cedo que o de costume. A noite ainda imperava no quarto. Quantas horas? Três? Quatro? Certamente não é cinco, no horário de verão o dia amanhece mais cedo que o de costume. Costume. O costume está impregnado correndo em minhas veias. Meu Deus! Dez horas?! E este escuro, o que é?


Uma escuridão mais negra que um olho fechado. Acendo a lâmpada. Dez vivas ao interruptor. A luz branca invade e inunda meu quarto e tudo fica tão claro que eu não consigo enxergar porra nenhuma além da luz branca violenta, sanguinária e tortuosa; a luz branca que fere meus olhos com a loucura de um recém viciado com sintomas de abstinência. Logo aos poucos começo a conseguir enxergar meu quarto, a luz branca amarelou-se.


Estou nu, deitado em minha cama e sinto alguma coisa grudada nas costas da minha mão, na divisa donde nascem o polegar e o indicador. É uma meleca seca. Meleca de nariz, ao que parece. Coço-a usando o meu indicador da mão direita – seria o polegar? – e ela se esfarela. A cama descoberta por sonhos e pesadelos do álcool. Minha bochecha direita molhada de baba, ou seria vômito? – não, é baba mesmo.

sábado, 3 de julho de 2010

Diário de um Desconhecido IV

Eu me despeço da lua pois o sol já aparece no horizonte iluminando todo o deserto negro, esse deserto infinito e imutável. Observando esse deserto eu me sinto tão calmo. O vento passa trazendo lembranças dos outros cantos do mundo. Procuro saber de onde o vento vem e descubro que ele vem de todos os cantos. Começo a pensar se há algo além desse deserto e peço ao vento notícias do mundo. Ouço-o contar sobre o oceano que nasce com o sol e morre sem ele. Ouço falar da pequena floresta das árvores caídas e da poderosa montanha que a lua tenta alcançar, mas que somente no sol consegue encostar, tendo de, toda noite, sua jornada recomeçar. Ele fala sobre esse deserto que sempre se modifica e contínua igual. O vento logo se vai pois o tempo não o deixa ficar muito tempo parado. Pergunto a vida e a morte se elas já foram a esses lugares. Elas dizem que sim, mas já tem muito tempo desde que a morte viu o oceano pela última vez. Eu me pergunto como seriam esses lugares e elas me dizem que um dia eu irei vê-los. Eu fico imaginando como será o resto do mundo enquanto o sono me leva de volta para o intrigante planeta dos sonhos.

Leitores dos Boêmios