terça-feira, 25 de maio de 2010

Lá estava o homem das mil faces recluso em um quarto escuro iluminado por uma pequena luminária e pela luzinha que se desprendia de seus cigarro. Fingia não ouvir a barulheira que vinha de outros cômodos e principalmente do terreiro da casa. Uma festa heavy-punk-gothic-hippie-beat-pseudo-black-metal-rock acontecia enquanto ele escrevia loucamente em uma empoeirada maquina de escrever que não se sabe quanto tempo ficara parada, mas sua tinta ainda manchava o papel com letras.

Imperava naquele momento a face de José, o escritor, que após uma avalanche de álcool, tira gostos, pulos e repulos de alguém que não sabe dançar, músicas e sexo a face de Joe, o Frenético, saiu subitamente deste homem, dando espaço para José, o escritor. Assim, o homem das mil faces se desligou completamente do mundo a sua volta, sentou-se de frente aquela velha máquina de escrever e começou a relatar um poderoso fluxo de consciência que, embora fosse José quem escrevia agora, era Joe, o frenético, quem impulsionava essa avalante de pensamentos e também gerava alguns tremeliques nas mãos enquanto acendia um novo cigarro, ou recarregava a máquina com um novo papel enquanto deixa o recém papel escrito posto numa montanha de papel em formação.

Feito seis páginas escritas sente alguém dar um cheiro em seu cangote e, sem parar de escrever como se seus dedos funcionassem sem que a mente precisasse comandá-los, perguntou:

- Quem é?

- Sou eu. Penha.

Joe, o frenético, tomou conta da situação e pulou feito uma bala de canhão em direção a parede gritando.

- Sai fora, viado!

Carlão Penha era um amigo do amigo de um outro amigo que era amigo de Joe, o frenético. Aos poucos José, o escritor, foi assumindo o controle e foi se sentando de volta à cadeira enquanto pedia ao Penha para que chamasse o Mala.

- Só se você me der o seu cuzinho.

- Então deixa prá lá. Não precisa pedir não.

José mal voltou a escrever e logo parou novamente e pediu ao Penha se poderia chamar o Rá.

- Me dá o seu cuzinho e eu chamo.

- Fica sem chamar então.

José pegou um papel em branco que havia e escreveu a caneta bem grande:

"Rá, Mala ou JC,
Se por um acaso um de vocês virem este papel, por favor, peguem este montante de folhas que há aqui ao meu lado, leiam e avaliem."

José postou-se a escrever novamente e quanto mais escrevia, mais Joe assumia o controle das mãos e da mente até que tanto Joe quanto José controlavam as informação do fluxo de de consciência na mesma intensidade e assim surgiu Zé Joey, o escritor frenético, que já não tinha qualquer percepção de espaço que não fosse o espaço que compreendia a cadeira e a máquina, assim toda vez que ele retirava uma folha já escrita e punha em cima de outras folhas já escritas ele já não via onde as folhas caiam, sentia que suas mão fossem transportada através do espaço-tempo para uma outra dimensão e logo após ele, de forma inconsciente, pegava uma folha nova que estava em uma montanha de folhas em branco deitadas em seu colo ou então puxava do bolso da calça um novo cigarro e o acendia sem saber ao certo o que fazia.

A sua volta passavam pessoas vez ou outra que o chamavam para voltar à festa. Em um breve momento o Mala apareceu ao quarto e cutucou Zé Joey, mas foi como se tivesse cutucado um dos residentes de um necrotério. Zé Joey sentiu sim que alguém havia encostado em seu ombro, mas não via quem era pois seus olhos não conseguiam olhar para os lados. O Mala foi verificar o que que Zé Joey queria com ele, pois o Penha havia informado a ele que José queria falar algo com ele, mas como Zé Joey não havia prestado atenção, o Mala resolveu ir embora.

Outra pessoa que foi visitar José foi o JC. A sala estava abafada e com um cheiro de fumaça de cigarro tão forte que já não era mais cheiro e sim um fedor desgraçado. JC, que foi lá também por ter sido informado por Penha, chamou José umas três vezes e tossiu umas quinhentas, mas não ousou entrar de vez no quarto pela fumaça intensa que pairava no ar. Parecia que tinha um bando de fumantes jogadores de poker naquele quarto.

Muito mais tarde entrou Rá. Gritando "puta que pariu, véi, abre essa janela!" e foi logo ele mesmo abrindo a janela a luz do sol invadiu o quarto de forma que a luz da luminária ficou como se não existisse. Rá viu Zé Joey dormindo com a cara caída nas teclas da máquina de escrever e um "F" e um "I" meio borrado no fim da página. Zé Joey dormia feito um beatnick existencialista bêbado. Rá olhou ao redor e viu o papel que José havia escrito para o Mala, para o JC e para ele, ou para o primeiro que visse o papel. Foi juntando e organizando as páginas e tirou a última da máquina procurando fazer o maior barulho possível para ver se acordava Zé Joey, mas o escritor-frenético não acordou e finalmente saiu do quarto enquanto terminava de organizar as páginas, que estavam todas numeradas, mas fora de ordem por causa da forma freneticamente desorganizada que Zé Joey ia jogando os papéis de lado.

Eram três horas da tarde e todo mundo que tinha bebido e festejado no dia anterior estavam acordando ou curtindo uma ressaca fudida ou então almoçando para ao fim de quatro ou cinco horas já estivessem todos indo embora.

Seis horas e o Sol já se pondo, uma mulher entrou ao quarto que ainda fedia cheirava a cigarro, mas numa proporção muito aquém à anterior. Ela fez carinho nos cabelos desgrenhados de Zé Joey, que na noite anterior estava perfeitamente penteado ao estilo Elvis Presley e agora parecia o cabelo de um alcoólatra que sucumbe à própria tristeza num apartamento solitário assistindo um programa de auditório, dizendo “ei amor! Vamos, acorda”.

Logo então acordou Juan, o romântico-de-ressaca. Acordou meio tonto ainda sem saber onde estava e demorando a focalizar o quarto, pois o Sol que embora já se punha e a luz acesa no quarto pareciam querer cegá-lo.

"Oh meu amor!" Tentou dar um beijo em Maria Janis, mas ela rejeitou dizendo "nã nã nã não... Vá escovar lavar sua boca antes, pois se você fumou o tanto que esse quarto cheira, sua boca deve estar um cinzeiro"

Juan se levantou e andou até o banheiro. Fez seu xixizinho. Lavou suas mãos, seu rosto – foi aí que finalmente conseguiu acordar se tornando João, o-homem-comum – e por fim escovou os dentes. Andou até a cozinha, onde estavam Maria Janis e Rá. João fez seu desjejum enquanto Rá terminava de ler aquelas cem páginas que havia apanhado.

- Poxa cara. Bacana isso aqui. Essa parte então em que ele se assusta com sua imagem no espelho então, achei muito enigmática.

- Que parte? O que é isso que você está lendo?

- O livro que você escreveu.

- Livro? Leia um pedaço para mim.

- "Ele então levantou-se da sua cama como quem levanta de uma tumba dirigindo-se ao Caronte e se olha no espelho assustando-se com a própria imagem. A imagem que ele tanto amava, mas há muito tempo não a via. A imagem que passara toda sua vida buscando e finalmente pode conhecer em sua eternidade essa imagem era simplesmente a imagem do homem comum.

"Então voltou sua face mirando um nascer de um novo dia que seria e inesquecível e admirou por muito tempo o horizonte que se acabava nas montanhas e olhava para aquelas pessoas que brincavam lá fora, pessoas que seriam seu mais novos amigos pelo resto de sua vida.

E assim ficou por horas e horas a fio. Enfermeiros e psicólogos vinham chamá-lo, mas ele somente dizia "deixa-me ficar aqui mais um pouco admirando minha nova casa". E lá ele via o mais belo campo florido que já vira em sua vida: O jardim do hospício."

Lembra-se disso?

- Não. Soa inteiramente novo para mim.

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